LENDA DE BARRELAS
Reza a lenda que, antigamente, Famalicão se situava no alto da encosta poente, no lugar conhecido como “Barrelas” – de que subsistem ainda as ruínas.
Uma praga de formigas aladas terá provocado a destruição das culturas agrícolas e mesmo a morte de algumas crianças de tenra idade, levando os habitantes a abandonar o lugar e a fixar-se no vale, mais propício em condições climatéricas, água e solos férteis, dando assim origem ao povoado de Famalicão.
Na verdade, a importância de Barrelas advinha da sua localização estratégica, na cumeada da encosta, à beira da “Estrada de Herodes” (via romana que ligava Braga e Mérida) – o que a tornava um apetecido num ponto de paragem, para os viajantes restaurarem forças e equipamento, após a subida íngreme da encosta, desde o vale da Ribeira de Famalicão.
A crer nas referências históricas aduzidas por Bento da Rocha, na “Monografia de Valhelhas”, o povoado de Barrelas terá sido arrasado durante a Reconquista e doado por D. Sancho I aos Templários, juntamente com todo o termo da vila de Valhelhas, que englobava igualmente as terras e povoado de Famalicão. Certo é que não há referências à reedificação de Barrelas e, embora em meados do século passado ainda se mantivessem de pé algumas construções – incluindo as ruínas da igreja, é de crer que o povoado se tenha mantido apenas como local ligado à pastorícia e à cultura do centeio – sendo certo, isso sim, que durante estes séculos muitas das pedras dos seus edifícios “migraram” de facto para o vale, acabando por ser usadas na construção das casas de Famalicão.
A destruição e saque do património de Barrelas teve os seus últimos episódios nas décadas de 70 e 80 do século passado, numa conjugação infeliz do advento da maquinaria, da falta de sensibilidade dos proprietários e da incúria das autoridades.
LENDA DO SENHOR BOM JESUS
Reza a lenda que uma jovem pastora de Valhelhas apascentava o seu rebanho junto à ribeira, a cerca de um quilómetro de Famalicão, quando encontrou uma pequena imagem de Cristo Crucificado, que levou para casa.
Porém, no dia seguinte, e ao passar pelo mesmo local, voltou a encontrar o misterioso crucifixo, entre os juncos, à beira da água.
Levando de novo a relíquia para casa, fechou-a cuidadosamente numa arca, mas, uma vez mais, a sagrada imagem desapareceu, para reaparecer sempre no mesmo no lugar onde fora encontrada. Este facto, visto como uma ocorrência milagrosa, terá estado na origem da construção do Convento do Senhor Bom Jesus, mandado edificar em 1680, por D. Rodrigo de Castro, e que, até à revolução liberal, acolheu frades franciscanos.
Do monumento, atualmente situado em terras de Famalicão, só a capela é pertença da paróquia e ali se realiza, no último fim de semana de setembro, a mais importante romaria de Famalicão, em Honra e Louvor do Senhor Bom Jesus – celebração em que se conjugam o agradecimento pelas colheitas do ano e a memória da libertação de uma praga de lagartas que outrora assolou a região.
Lendas à parte, certo é que, ao longo dos tempos, a história da pastora e do Convento alimentou uma ancestral rivalidade entre Famalicão e Valhelhas – hoje totalmente esbatida entre as gerações mais jovens.